07-ABRIL-2020
HUGO SILVA: “AS NOSSAS VIDAS
ESTÃO ACIMA DE QUALQUER COMPETIÇÃO”

As várias entidades que regulam o Voleibol e as suas variantes a nível nacional e internacional foram obrigadas a tomar medidas tão rigorosas quanto corajosas para cerrarem fileiras no combate à pandemia do novo coronavírus e contribuírem assim para um rápido regresso à normalidade.
Como não podia deixar de ser, as decisões tomadas pela Federação Portuguesa de Voleibol (FPV), pela Confederação Europeia de Voleibol (CEV) e pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB) afectaram os atletas e clubes, o calendário de competições (suspensão ou cancelamento) e, por consequência, as selecções nacionais.

Hugo Silva, Seleccionador Nacional dos seniores masculinos, analisa a actual situação e adianta algumas possíveis soluções para amenizarem os efeitos negativos da paragem causada pela Covid-19.

Como vê o adiamento das competições e as alterações que isso irá provocar no trabalho de preparação da Selecção?
As alterações são mais que lógicas. Aliás, deixem-me dizer que a Federação de Voleibol foi a primeira, e até agora a única, a tomar decisões corajosas como as que tomou. Devo dizer que me sinto orgulhoso da federação da minha modalidade dar um sinal bem claro que as nossas vidas estão acima de qualquer campeonato ou competição. Parabéns à FPV por passar esta mensagem tão importante a todos, apesar de ser dura para todos nós.
Relativamente à programação da Selecção, e como é óbvio, a primeira parte da mesma (European Golden League) está perdida e relativamente à segunda (Qualificação para o Campeonato da Europa), estamos a aguardar indicações da CEV, mas não acredito que haja condições para se fazer seja o que for. Na melhor das hipóteses, poderiam passar parte desta competição para Janeiro.
Quanto à Golden League e Challenger Cup, infelizmente não vejo outra opção que não seja anular, pois pode afectar o início tranquilo e normal da próxima época.
Neste momento, só podemos aguardar e fazer a nossa parte. Os atletas terão, como já o têm aliás, o seu trabalho de casa, dentro do que é possível fazer
”.

Há mais medidas que possam ser tomadas, a nível nacional e internacional, para resguardar a saúde dos jogadores, mas, ao mesmo tempo, salvaguardar as competições?
A medida única é parar! E alterar, no caso da Selecção, a qualificação para o próximo ano (Janeiro), como já se fez no passado. Relativamente às provas internas, na minha opinião devíamos anular os campeonatos e não haver campeões, nem descidas e subidas.
No limite, e em relação às equipas que investiram para subir de divisão, é um ano excepcional e não devia descer ninguém e subirem as duas melhores classificadas da II Divisão até ao momento, o que implicaria disputar uma época com 16 equipas, ajustando depois no ano seguinte, ou seja, fazendo descer quatro equipas. Esta é na minha opinião a forma mais justa, em função desta anormalidade, quer interna quer ao nível das selecções
”.

Dicas que o Seleccionador poderá dar para um atleta se manter razoavelmente «em forma»...
Numa modalidade de equipa, por muito que se trabalhe em casa, nunca o regresso vai ser igual. Apenas é possível atenuar e disfarçar o mau momento com que todos vão chegar. No Voleibol, mais do que em qualquer outra modalidade, o atleta iria precisar de mais uma boa pré-época para tudo voltar ao normal. Por isso, e nestas condições, é melhor trabalhar a parte física, nomeadamente a força e o reforço muscular, e ir fazendo o possível na parte cardio. Mas uma certeza eu tenho: o que nunca o devem fazer é estarem sentados o dia todo e não se mexerem”.

– Desportivamente, o que tem visto de positivo na internet ou através das redes sociais? E a nível social, destaca algum aspecto (solidariedade, etc.)?
Destaco, em particular, o facto de que é possível vivermos com menos luxos e sermos felizes de igual forma. Contudo, receio o que aí vem em relação a uma economia tão frágil como a nossa!
Depois, há pequenas rotinas que todos vamos ter de aprender por muito básicas que sejam, como o saber lavar as mãos, o saber tossir, as regras do toque, quer em objectos quer nas pessoas, o distanciamento das mesmas, que, na verdade, mesmo depois de tudo isto passar, vamos ter de levar para a vida para o bem de todos nós.
E sobretudo há as relações humanas, o valorizar mais as palavras amigo e família e sem dúvida que vamos aprender a pensar muito mais nos outros e menos em nós. Por fim, e relativamente ao trabalho, vai abrir-se uma nova forma de trabalhar e que pode e deve ser aplicada em todas as áreas. Vamos ter de nos adaptar às mudanças que este vírus nos obrigou a fazer e que, quanto a mim, serão mudanças para muito melhor
”.

– Enquanto pessoa e cidadão português, como encara esta situação de pandemia?
Ouvimos muita coisa pelas redes sociais e Imprensa, umas mais verdadeiras do que outras. Uma coisa eu sei, vai ser o maior desafio das nossas vidas! Além disso, sou daqueles que acreditam que isto é um sinal que algo tinha de mudar. A Humanidade já há muito tempo que pisou o risco e tudo isto é a prova evidente que o nosso planeta tem um fim, assim como a forma como todos vivemos.
É urgente estimar a Terra para o bem das próximas gerações e ter consciência de que esta nossa forma de viver se esgotou. A grande dúvida é se vamos saber dar uma resposta cabal a esta exigência que nos foi colocada.
Se nada fizermos, os nossos filhos e netos vão passar por bem pior do que nós estamos a passar!

Mais informações em www.fivb.com / www.cev.eu

 
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