24-MARÇO-2020
PORTUGUESAS NÃO VIRAM A CARA À LUTA:
"AGORA TEMOS TODOS UM ADVERSÁRIO COMUM"


O estado de calamidade pública vivido em Espanha com a pandemia de Covid-19 alterou drasticamente a vida de todos quantos habitam no país vizinho de Portugal.
Na sociedade espanhola vivem-se tempos muito complicados – com 2.696 mortos (em 24 de Março), 514 nas últimas 24 horas, número que só é superado pela Itália e pela China – e o país está praticamente parado.

No que ao Voleibol diz respeito, a Real Federação Espanhola de Voleibol (RFEVB) decidiu-se pelo cancelamento dos campeonatos.
Na Liga Iberdrola, a principal competição de seniores femininos, o campeonato terminou à 20.ª jornada, a duas rondas do fim da 1.ª fase, com o May Deco Voleibol Logroño, campeão em título, na liderança, com 57 pontos, o Avarca de Menorca, de Neusa Neto, em 2.º lugar (48 pts) e o OSACC Haro Rioja Vóley no 5.º posto (40 pts).

Marta Hurst, que liderava o ranking das melhores zonas 4 e Neusa Neto, central que regressava aos pavilhões após lesão, vêem com apreensão o desenrolar dos acontecimentos no país que as acolheu e apelam à solidariedade e compreensão de todos os povos para que cumpram as directrizes das autoridades, de forma a que consigam enfrentar um "adversário comum" e que "uma cicatriz desta dimensão nos transforme numa sociedade mais consciente e unida, algo positivo e que nos levará a um futuro melhor".

- A pandemia obrigou as pessoas a alterarem, por vezes drasticamente, o seu dia a dia. No vosso caso, como atletas de alta competição, e impossibilitadas de regressarem, para já, a Portugal, quais foram as mudanças a que foram submetidas?

Marta Hurst:
"Apesar de inicialmente haver a opção de suspender, a Real Federação Espanhola decidiu cancelar totalmente o que faltava da Superliga (2 jogos da fase regular e os playoffs). Decidi ficar em Espanha porque a zona onde resido (Haro, La Rioja) foi das primeiras zonas do país a ter um surto de casos. Antes de Madrid, era a zona do país com mais casos por habitante. Não fazia então sentido voltar para Portugal, não só pelo facto de ter que fazer a viagem em si, mas também pela simples razão de eu poder ter o vírus e não ter nenhum sintoma. Não achei que fosse responsável da minha parte voltar a casa, por mais que gostasse de poder estar junto da minha família.
Em relação ao plano de treino, como atleta profissional tento manter a minha forma física para a época seguinte. É uma manutenção mais difícil de obter, pois a quarentena obriga a que eu esteja sempre em casa. A única opção são circuitos com exercícios possíveis de fazer em casa, que apesar de serem sem uma adição de carga externa elevada, ajudam o corpo a manter-se activo
".

Neusa Neto:
"O nosso campeonato terminou abruptamente e até agora o que tenho feito tem sido procurar soluções para poder regressar a casa em segurança o quanto antes. Por enquanto, não tenho grandes opções sem ser ficar onde estou de momento, em Menorca. Desde que foi imposto aqui o estado de alerta, apenas saí de casa para ir às compras. Os meus dias têm se resumido a estar em casa, manter-me a par das últimas notícias, família, amigos e, como já tinha dito, organizar-me para sair daqui.
O exercício físico em casa tem sido um desafio, principalmente porque passei a última semana preparando-me para viajar no passado dia 20 (o que não me foi permitido), mas nos próximos dias já terei um plano individual de treinos mais organizado, já que sei que não poderei deslocar-me pelo menos até ao final do mês
".

- O que é que mais vos marcou em todo este processo?

Neusa Neto:
"O que mais me marcou foi a rapidez com que tudo se foi desenvolvendo nas últimas semanas. Tenho estado atenta e a adaptar-me, mas não deixa de ser difícil tanta mudança..."

Marta Hurst:
"Para mim, a rapidez com que a Europa se viu afectada pelo vírus foi o que teve mais impacto. Em menos de 30 horas, aqui em Espanha, passámos de jogar à porta fechada, para não haver mais competição. Foi tudo muito rápido, o que obrigou também a uma adaptação rápida. Sinto-me bastante sortuda por ser atleta nesta situação. Uma boa capacidade de adaptação ao adversário é muito importante no Desporto, mas também na vida. E neste momento o adversário de todos nós é o COVID-19. Por outro lado, também me chocou (e continua a chocar) a facilidade que algumas pessoas têm em descartar esta pandemia como algo sério, como algo que cada um de nós tem uma responsabilidade individual para com o colectivo. Não podemos viver esta situação de maneira ligeira, e qualquer medida de contenção nunca será exagero".

- Esta pandemia ainda não atingiu o seu pico. Como antevêem os próximos tempos? Com confiança?

Marta Hurst:
"Pelo que tenho visto, penso que nenhum país vai estar imune a esse pico. Portugal não vai estar imune a um número elevado de casos e à existência de fatalidades. No entanto, penso que quanto mais cedo os responsáveis de cada país tomarem as medidas necessárias, menor será o impacto negativo. Tenho total confiança de que esta pandemia é uma situação que se poderá ultrapassar. Vai ser necessário que cada pessoa cumpra o seu papel, que respeite as medidas impostas pelo Governo e seja responsável pela sua saúde. Apesar de agora estarmos foçados em proteger-nos do inevitável impacto do vírus no nosso país, penso que será também importante consciencializar as pessoas para a fase de recuperação pós-pandemia. Digo isto pois acredito que todas as áreas (economia, desporto, saúde, arte, etc.) vão sair extremamente afectadas. Todos os países vão ter uma ferida por curar. O esforço vai ser longo e duro, mas acredito que este momento histórico que vivemos será ultrapassado com sucesso. Só depende de nós quão profunda será a ferida do coronavírus, e de que maneira a recuperamos/cuidamos depois. Seguramente uma cicatriz desta dimensão vai-nos transformar numa sociedade mais consciente e unida, algo positivo e que nos levará a um futuro melhor."

Neusa Neto:
"Os próximos tempos vão ser difíceis, e é importante que todos nos apercebamos disso e que colaboremos para tornar o processo mais fácil. Gostaria de fazer o apelo para que todos fiquem em casa, não saiam porque precisam de apanhar ar, exercitar ao ar livre, espairecer… Fiquem em casa. Estamos todos com medo e com muitas dúvidas, mas temos uma certeza: este vírus transmite-se com muita facilidade e a doença pode ser mortal; assim que peço a todos que não se exponham e ponham outros em risco sem necessidade. Se cumprirmos e ficarmos só algumas semanas em casa, poderemos ter de volta a nossa liberdade mais cedo".

Atletas / técnicos que actuam no estrangeiro e/ou com inscrição iniciada em 2019/2020:

Cuprum Lubin (Polónia) – Miguel Rodrigues
Aluron Virtu Warta Zawiercie (Polónia) – Alexandre Ferreira
Al Rayyan (Catar) – Marco Ferreira
AO Foinikas Syrou (Grécia) / Esmoriz GC – Filip Cveticanin
Dinamo de Bucareste (Roménia) – José Pedro Gomes
Terville Florange Olympique Club (França) – Júlia Kavalenka
OSACC Haro Rioja Vóley (Espanha) – Marta Hurst
Avarca de Menorca (Espanha) – Neusa Neto
Hapoel Hamaapil/Menashe/Emek Hefer Volleyball (Israel) – Valdir Sequeira
Maccabi AOV Ashdod (Israel) / Leixões SC - Phelipe Martins
UVC Holding Graz (Áustria, 1. Bundesliga) – José Jardim
UVC Holding Graz (Áustria, 1. Bundesliga) – Tiago Pereira
Chênois Genève (Suíça) – Rui Santos (Ruca)
Beziers VB (França, A1) – Keylla Ramos
Team South Wales (Inglaterra) – Mara Mata
AS Monaco VB (França) – Ana Menezes
LE Volleys (Alemanha, Regionalliga) – Matilde Slveira
VC Don Bosco Tournai (Bélgica, Div. Provincial) – Bruno Lobo
Dartford (Inglaterra, Div. 1) – Mariana Santos
Quimper Volley 29 (França) – Kristyna Vojikova
Istres Ouest-Provence Volley-Ball (França) – Sotia Monteiro
Durham Palatinates Women (Inglaterra / Super League) – Susana Veiga
CEVOL Torredembarra (Espanha /  / Primera División) – Daniel Carvalho
VBC TLC Weiz (Áustria) – José Carlos Vinha
Union AS Seyssinoise VB (França/Régional M1) – Sérgio Miranda
Southampton VC (Inglaterra/Womens Division 3 South West) – Sofia Santos
Volleyballclub Volero Zuric( Suíça) – Adelino Emanuel Martins
Treinadores:
Istres Ouest-Provence Volley-Ball (França) – André Sá
Istres Ouest-Provence Volley-Ball (França) – David Sousa
VBC Galina (Liechtenstein, 1. Liga Suíça) – Filipe Carrasco Soares
Blue Volei Clube (Angola) – André Pereira
Team South Wales (Inglaterra) – Manuel Santos
VC Kanti Schaffhausen (NLA, Suíça) – Arlindo Miranda
Pornic (França /Sub-12) – Luciano Rosa

Informações adicionais: www.cev.eu / www.facebook.com/fpvoleibol

 
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